O que é benchmarking: tipos, exemplos e como aplicar na gestão

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Tallis Gomes

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Benchmarking é o processo estruturado de comparar seus processos, produtos e resultados com referências de mercado para identificar e adotar as práticas que geram desempenho superior. Na prática, é parar de adivinhar o que funciona e aprender com quem já resolveu o problema que você está tentando resolver.

Este guia é para quem lidera uma empresa e precisa transformar comparação em decisão. Não basta admirar o concorrente ou colecionar slides de “cases inspiradores”. O valor do benchmarking aparece quando a comparação vira meta, prioridade e mudança de processo.

Em resumo: benchmarking é comparar processos, produtos e indicadores da sua empresa com referências de mercado para adotar o que gera desempenho superior. São sete tipos (interno, competitivo, funcional, genérico, de processos, de desempenho e estratégico) e quatro etapas: planejar, coletar dados, analisar e adaptar.

O que é benchmarking

O termo pode ser traduzido como avaliação comparativa. Ele consiste em medir aspectos do seu negócio (processos, produtos, serviços, custos, indicadores) contra o que é feito por empresas reconhecidas como referência, para então fechar a distância entre o seu desempenho e o delas.

O dicionário Merriam-Webster define benchmark como “um ponto de referência a partir do qual podem ser feitas medições”. Já o The Performance-Based Management Handbook, do U.S. Department of Energy e do Oak Ridge Institute for Science and Education, descreve benchmarking como o processo contínuo de medir produtos, serviços e práticas em relação aos concorrentes mais fortes ou às empresas líderes de um segmento, e usar essa análise para igualar e superar o que elas oferecem.

O American Productivity and Quality Center resume a postura por trás do método: ser humilde o suficiente para admitir que outra empresa é melhor em algo e disciplinado o suficiente para aprender como igualar ou superar esse ponto.

Vale corrigir uma confusão comum: muita gente escreve “benchmarketing”, com a palavra marketing no meio. A grafia correta é benchmarking, derivada de benchmark (ponto de referência). O conceito também não se restringe ao marketing: aplica-se a qualquer área que possa ser medida e comparada, de finanças a operações.

Benchmark e benchmarking: qual a diferença

Benchmark é o ponto de referência; benchmarking é o processo de comparar-se com ele. O benchmark é o número ou a prática que você usa como parâmetro, por exemplo o tempo médio de resposta do líder do seu setor. O benchmarking é a atividade contínua de medir sua operação contra esse parâmetro e agir sobre a diferença. Um é o alvo, o outro é o método.

Por que benchmarking importa para quem lidera uma empresa

Os dados de sobrevivência empresarial ajudam a entender por que comparar-se com bons padrões deixou de ser opcional. O estudo Sobrevivência das Empresas Mercantis Brasileiras (2021-2025), do Sebrae, mostra que cerca de 72% dos pequenos negócios abertos no período passaram dos dois anos. A folga encurta no horizonte mais longo: entre os MEIs, cerca de 58,5% não chegam a cinco anos de atividade.

O próprio Sebrae aponta o que separa quem fica de quem fecha. As micro e pequenas empresas sobrevivem mais que os MEIs por reunirem mais estrutura e planejamento, maior capacitação, acesso a crédito e diversificação de mercado. Os negócios mais frágeis combinam o oposto: menos planejamento, baixa capacitação e acesso restrito a mercados. Boa parte dessa diferença é prática de gestão, e prática de gestão se aprende, inclusive observando quem já faz melhor.

E o mercado é grande demais para depender de intuição. O Mapa de Empresas do governo federal registrou 23,2 milhões de empresas ativas no país no primeiro quadrimestre de 2025, das quais 93,6% são micro ou pequenas. Em um ambiente assim, partir de uma referência já validada encurta caminho. Benchmarking é o método para enxergar e adotar o que as empresas mais sólidas fazem de diferente, em vez de tentar reinventar tudo do zero.

Vantagens do benchmarking

Quando bem conduzido, o benchmarking entrega ganhos concretos para quem decide:

  • Decisões apoiadas em parâmetros reais, no lugar do achismo.
  • Metas mais realistas e menos tempo para melhorar, porque você parte do que já funciona.
  • Leitura mais clara da concorrência e da dinâmica do setor.
  • Boas práticas incorporadas aos processos, com ganho de produtividade e menos erro.

Quais são os tipos de benchmarking

The Performance-Based Management Handbook organiza o benchmarking em sete tipos. Eles não são excludentes: a maioria dos projetos combina dois ou três conforme o objetivo.

Tipo O que compara Quando usar
Interno Operações similares dentro da própria empresa (unidades, filiais, times) Quando há variação grande de desempenho entre áreas que fazem a mesma coisa
Competitivo Um produto ou serviço específico frente a concorrentes diretos Para fechar gaps claros contra quem disputa o mesmo cliente
Funcional Funções similares dentro do mesmo segmento Para melhorar uma área específica (logística, atendimento) com pares do setor
Genérico Processos, independentemente do segmento ou da função Quando a melhor referência de um processo está fora do seu mercado
De processos Processos de trabalho como faturamento, recrutamento e compras Para reduzir ciclo, custo e erro em um fluxo operacional
De desempenho Produtos e serviços por preço, qualidade, velocidade e confiabilidade Para posicionar oferta; usa engenharia reversa e comparação direta
Estratégico Como empresas competem e quais estratégias as tornam vencedoras Para decisões de longo prazo e posicionamento de mercado

Para o decisor, os mais relevantes costumam ser o estratégico e o de processos: um informa onde competir, o outro melhora como a empresa entrega. Esse olhar conversa diretamente com a disputa por market share e com a diferenciação de produto em mercados competitivos.

Na prática, esses tipos costumam ser agrupados em duas frentes. O benchmarking interno compara áreas, unidades ou filiais dentro da própria empresa. O benchmarking externo olha para fora: concorrentes diretos, empresas de outros setores e referências de mercado. A maioria dos projetos combina as duas.

Como fazer benchmarking: passo a passo

O mesmo handbook divide o processo em quatro fases. A lógica é simples de descrever e difícil de executar com disciplina, e é na execução que a maioria dos projetos falha.

1 – Planejar

Defina o que será comparado antes de olhar para fora. Escolha a área e o processo, identifique os indicadores de desempenho que importam e estabeleça o escopo do estudo. Monte a equipe responsável e crie os critérios para selecionar os parceiros de comparação. Sem clareza nessa fase, o projeto vira coleta de curiosidades sobre concorrentes. Uma autoavaliação honesta das forças e fraquezas internas ajuda a apontar onde a comparação vai render mais. Ferramentas como a análise SWOT são úteis aqui, e conectar o estudo ao planejamento estratégico da empresa evita que ele vire um exercício isolado.

2 – Coletar dados

A coleta tem duas frentes. A informação secundária vem de pesquisas públicas, relatórios setoriais, periódicos e especialistas, e serve para mapear candidatos a parceiro de benchmarking. A informação primária vem direto do parceiro, por questionário detalhado e conversas presenciais ou remotas.

O critério de escolha do parceiro é onde muitos erram. O foco deve ser o processo que você quer melhorar, não a marca que você admira. Nem toda empresa famosa tem processos excelentes em tudo. A pergunta certa é: quais negócios dependem fortemente desse processo para existir? São eles que provavelmente têm algo a ensinar, mesmo que estejam em outro setor.

3 – Analisar

Compare os dados de desempenho lado a lado, normalizando unidades para que a comparação faça sentido. O objetivo é entender três coisas: o que os parceiros fazem que você não faz, como fazem e quais fatores permitem que façam. A partir daí, monte um relatório de análise de gaps e separe o que pode ser adotado direto do que precisa ser adaptado à sua realidade. Essa etapa é a mais trabalhosa e a que mais distingue um benchmarking sério de uma visita guiada. Conectar essa leitura a um diagnóstico empresarial estruturado e a métodos de melhoria como o Six Sigma ajuda a priorizar onde agir primeiro.

4 – Adaptar e melhorar

É aqui que a maioria dos esforços naufraga. Transformar a análise em mudança real exige plano de implementação, metas realistas, apoio de gestores e equipe, e acompanhamento de resultados. Documente o estudo, comunique os resultados internamente e trate benchmarking como rotina, não como projeto único. Quando essa fase falha, o efeito é pior do que não ter começado: a equipe conclui que “benchmarking não funciona” e resiste à próxima tentativa.

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Como transformar benchmarking em decisão de gestão

O ponto cego mais comum entre fundadores não é encontrar boas referências. É converter a referência em decisão. Sem uma estrutura, o benchmarking produz um diagnóstico que inspira e não muda nada. A comparação só vira resultado quando entra no ciclo de gestão: vira meta com responsável, prioridade no roadmap e ritmo de execução com acompanhamento.

Na prática, isso significa amarrar cada gap identificado a três perguntas de gestão. Quem é o dono dessa mudança? Em quanto tempo e com qual meta numérica? Como vamos medir se funcionou? Essa disciplina é o que separa empresas que aprendem com o mercado daquelas que apenas observam. Para estruturar prioridades e ritmo de execução, vale conhecer o programa G4 Gestão e Estratégia e aprofundar os fundamentos de gestão estratégica.

Vale também conectar o benchmarking a indicadores formais. Ferramentas como o Balanced Scorecard ajudam a traduzir as práticas observadas em metas de desempenho monitoráveis ao longo do tempo. O mapa estratégico e a gestão por resultados com OKRs e KPIs completam esse desenho, ligando cada gap a uma meta com responsável.

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Exemplos de benchmarking na prática

O benchmarking não é prática recente. No século XIX, o empreendedor americano Francis Lowell estudou as técnicas da indústria têxtil britânica, então líder mundial, e replicou o que aprendeu em fábricas nos Estados Unidos. A versão moderna ganhou força no fim dos anos 1970, quando a Xerox comparou seus custos de fabricação e os recursos das copiadoras com os das concorrentes japonesas, descobriu que estava atrás em vários pontos e lançou a estratégia “liderança pela qualidade” para retomar mercado.

Jorge Paulo Lemann e a cultura do Walmart

Um dos maiores empresários do Brasil, Jorge Paulo Lemann, construiu boa parte de sua trajetória aprendendo com referências. Ele estudou práticas de Jack Welch, ex-CEO da General Electric, como o incentivo à meritocracia, e aproximou-se de Sam Walton, fundador do Walmart, referência mundial em varejo e gestão de custos.

Quando o Banco Garantia, de Lemann, comprou as Lojas Americanas nos anos 1980, a varejista tinha problemas de gestão que o trio formado por ele, Marcel Telles e Beto Sicupira não conseguia resolver sozinho. Eles escreveram para grandes varejistas do mundo. Sam Walton respondeu e os convidou para conhecer a sede do Walmart, no Arkansas. A relação virou amizade e fonte de aprendizado. A AB InBev, hoje maior cervejaria do mundo, é em parte herança dessa mentalidade: aprender com o melhor e executar melhor. A mesma lógica de aprender com referências aparece na compra da Skechers pela 3G Capital.

__wf_reserved_inheritO investidor brasileiro Jorge Paulo Lemann, sócio majoritário da AB InBev(Crédito: Reprodução/YouTube)

Israel Salmen e a Méliuz

Israel Salmen, fundador da Méliuz, fez algo parecido em escala de startup. Percebendo que a operação ainda não era saudável, ele enviou mensagens pelo LinkedIn ao fundador do Quidco, maior site de cashback do Reino Unido, e a um dos fundadores do Ebates, líder nos Estados Unidos. Apresentou-se e disse que gostaria de aprender com os melhores.

Os dois responderam. O fundador do Quidco bancou passagem e hospedagem para Salmen passar duas semanas dentro da operação em Londres, com extensão em Berlim. Foi benchmarking na forma mais direta: tempo dentro de um dos maiores negócios de cashback do mundo, com acesso a decisões que não estão em nenhum artigo. O aprendizado ajudou a estruturar a Méliuz, que anos depois abriu capital na B3.

O fundador da Méliuz, Israel Salmen

Israel Salmen, fundador da Méliuz (Crédito: Projeto Draft)

Na minha vida, eu sempre fui muito mais copiador do que um inventor. Em todos os negócios que eu tinha: vamos fazer uma coisa nova, quem é o melhor no mundo que está fazendo isso? Vai lá, aprende, copia e, se puder, vem pra cá e faz melhor.

Abilio Diniz, empresário brasileiro que liderou Pão de Açúcar, BRF e Via Varejo

Erros comuns ao fazer benchmarking

Quem opera uma empresa costuma tropeçar nos mesmos pontos. Vale conhecê-los antes de começar.

  • Copiar sem adaptar. A prática que funciona em uma empresa com outra estrutura, outro porte e outra cultura pode quebrar na sua. Benchmarking é traduzir, não colar.
  • Escolher a marca, não o processo. Admirar uma empresa famosa não garante que ela seja boa no processo que você quer melhorar.
  • Parar no diagnóstico. Relatório bonito sem plano de implementação, dono e meta é dinheiro e tempo perdidos.
  • Comparar dados não comparáveis. Sem normalizar métricas, a conclusão sai errada e a decisão também.
  • Tratar como projeto único. O mercado muda. Benchmarking que não é contínuo envelhece rápido.

Perguntas frequentes sobre benchmarking

O que é benchmarking com um exemplo?
Benchmarking é comparar seu desempenho com referências de mercado para adotar práticas melhores. Exemplo: uma rede de varejo mede o tempo de atendimento do líder do setor, descobre que demora o dobro e redesenha o processo para fechar essa diferença. A comparação vira meta e mudança operacional, não apenas observação.
Quais são os tipos de benchmarking?
São sete: interno, competitivo, funcional, genérico, de processos, de desempenho e estratégico. O interno compara áreas da própria empresa, o competitivo olha concorrentes diretos e o estratégico analisa como as empresas competem. A maioria dos projetos combina dois ou três tipos conforme o objetivo da comparação.
Qual a diferença entre benchmark e benchmarking?
Benchmark é o ponto de referência, o número ou prática usado como parâmetro. Benchmarking é o processo contínuo de comparar sua operação com esse parâmetro e agir sobre a diferença. Um é o alvo, o outro é o método para alcançá-lo.
Como fazer benchmarking passo a passo?
Em quatro fases: planejar (definir escopo, indicadores e parceiros), coletar dados (secundários e primários), analisar (comparar, normalizar e mapear gaps) e adaptar (implementar mudanças com metas, donos e acompanhamento). A fase de adaptação é onde a maioria dos projetos falha por não virar execução.
Benchmarking é copiar o concorrente?
Não. Copiar sem contexto costuma falhar, porque cada empresa tem estrutura, porte e cultura próprios. Benchmarking é entender por que uma prática funciona e adaptá-la à sua realidade. A referência pode inclusive estar em outro setor, desde que o processo seja comparável ao que você quer melhorar.
Para que serve o benchmarking nas empresas?
Serve para tomar decisões com base em parâmetros reais em vez de intuição. Ele ajuda a definir metas realistas, encurtar o tempo de melhoria, entender a concorrência e incorporar boas práticas aos processos. Para quem lidera, é a ponte entre o que o mercado já resolveu e o que a sua operação ainda precisa melhorar.
Benchmarking serve para marketing, RH e finanças?
Sim. O método se aplica a qualquer área com processos comparáveis. No marketing, compara posicionamento e geração de demanda; em RH, práticas de recrutamento, retenção e remuneração; em finanças, indicadores de custo, margem e capital de giro. A lógica é sempre a mesma: medir contra uma referência e fechar a diferença.
Qual a origem e a tradução de benchmarking?
Benchmarking vem do inglês benchmark, que significa ponto de referência usado para medições. Em português, costuma ser traduzido como avaliação comparativa. O uso empresarial ganhou força no fim dos anos 1970, quando a Xerox passou a comparar sua operação com a das concorrentes para recuperar mercado.

Benchmarking como prática contínua de gestão

Sempre haverá alguém melhor que a sua empresa em algum ponto, independentemente do porte ou do setor. Negócios que viraram referência, como Netflix e eBay, não foram os primeiros em seus mercados: pegaram algo que já existia e executaram melhor. Para o fundador, a lição prática é largar a obrigação de inventar tudo do zero e construir o hábito de observar, comparar e adaptar de forma contínua.

Ser o primeiro do mercado não é o mais importante

(Na imagem: o antes e o depois, empresas que são referência hoje e as empresas nas quais elas se espelharam)

O próximo passo é transformar esse hábito em rotina: revisar referências, atualizar metas e manter o ritmo de execução. Estruturar esse crescimento, dos pilares de estratégia e gestão à governança, é o trabalho que o programa G4 Gestão e Estratégia desenvolve com fundadores e C-level.

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Tallis Gomes

Presidente do G4 e fundador da Easy Taxi, vendida após chegar a 35 países, e da Singu, adquirida pela Natura. Eleito o empreendedor mais inovador do mundo pelo MIT em 2017 e autor de "Nada Easy". Ensina gestão no programa Gestão e Estratégia.
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